Revisão de método de percussão para teclados de percussão: o que eles dizem sobre movimento corporal e postural?
Revisão de método de percussão para teclados de percussão: o que eles dizem sobre movimento corporal e postural?
by Guilherme Misina, Prof. Dr. Eduardo Lopes, Prof. Stephan Froleyks
Percussive Notes
Volume 64
No. 2
April
2026
Este artigo faz um levantamento de diversos métodos comumente usados no Brasil para a performance de marimba, com foco específico em movimento e postura. Enfatiza que, embora aspectos musicais como dinâmica recebam muita atenção, fatores físicos como postura corporal e movimento são frequentemente negligenciados, apesar de sua importância para uma execução saudável e eficiente. Os autores revisam métodos notáveis de Stevens, Anunciação, Rosauro, Firth, Tarcha, Peters e Zeltsman, destacando suas principais contribuições sobre posição corporal, posicionamento dos pés, relaxamento e altura do instrumento. O estudo ressalta o valor de compreender e aplicar esses princípios físicos para melhorar tanto a qualidade da performance quanto a saúde dos músicos durante a prática e apresentação.
Resumo
Este artigo trata-se de uma breve seção de um trabalho de doutorado em andamento, que trata sobre o movimento corporal e postural durante a performance da marimba, o qual evolve estruturas corporais em geral e, sabendo disso, quais exercícios técnicos poderiam ser desenvolvidos para fins de desenvolver aspectos de movimento e praticar/tocar a marimba com uma postural adequada. Aqui buscamos descrever e analisar o que alguns métodos de percussão trazem sobre esta temática supramencionada.
É possível afirmar que esta temática – movimento corporal e postural durante a performance da marimba – tanto não é muito discutida quanto é mencionada afundo pelos métodos que coletamos e descrevemos a seguinte. Todos os métodos são extremamente importantes, foram escritos por músicos altamente capazes e respeitados e até mesmo – ouso dizem – deveriam ser estudados, lidos e conhecidos pela maioria dos estudantes de percussão. Este projeto em andamento tem como finalidade não apenas de verificar o que a literatura existente escreve sobre a temática em questão, mas tambem visa a criação de mais materiais que ajudem alunos de nível universitário, sempre, entretanto, estando consciente sobre os limites e características de cada corpo, parâmetros musicais os quais pretendemos deixar flexíveis no que se refere a questões de tempo, dinâmicas e os futuros materiais a serem desenvolvidos, de forma, assim, a não comprometer a saúde daqueles que praticar tais materiais e ainda assim ser capaz de desenvolver tais habilidades. Esperamos, ao final deste projeto, que possamos entregar uma coletânea de materiais abrangente, completo e coerente que ajudem alunos de percussão a nível universitário que desejam tentar desenvolver especificamente estes aspectos de movimento corporal e postura na prática da marimba, sempre tendo em mente a abordagem teórica contida inicialmente na versão final da tese de doutorado (assim como a maioria dos métodos de ensino de música).
Introdução
A respeito da área de saúde dos músicos é possível encontrar diversos materiais a respeito. Sobre gestos e movimentos é possível encontrar bons textos como os de Davidson (1993, 2002, 2007), Pierce (2007), Bishop & Goebl (2015), Visi et al. (2017); tais textos são interessantes, pois, por exemplo, Davidson (2002) mostra como os gestos de músicos podem estar atrelados ao tempo de uma obra, e Pierce (2007) mostra como o movimento corporal pode contribuir para o desenvolvimento da precisão rítmica. Textos como Wong (2022), Shoebridge et al. (2017), Blanco-Piñeiro (2013), e Pierce (2007) são ótimos e clássicos exemplos de pesquisas feitas na área que mostram como ter uma boa postura corporal e atentar-se a determinados músculos podem ajudar a entregar uma melhor performance, e o que de fato constitui uma boa postura. Mais especificamente sobre o campo da percussão, podemos encontrar pesquisas feitas por autores como Colton (2013), Broughton & Stevens (2009), Broughton (2008), Dahl & Friberg (2007) e Dahl (2000).
É possível dizem que tocar a performance de um instrumento musical se baseia muito em escolhas pessoais e envolve vários aspectos performáticos, como dinâmicas, fraseado, escolha de tempos etc. A respeito da postura e movimento corporal, entretanto, é ainda possível dizer que estes dois aspectos se encaixam na lista de “preferencias pessoais”, porém existem aspectos do nosso corpo que simplesmente não podem ser negligenciados. Performers tem de fato corpos e estaturas diferentes, e isso são características que devem ser levadas em conta quando tocamos ou praticamos por muitas horas seguidas. Existem, todavia, alguns pontos-chaves que podem ser percebidos e ajustados para uma performance melhor e mais saudável, e o objetivo deste texto é apontar o que alguns métodos de ensino de percussão abordam sobre esta temática.
A maioria dos métodos mencionados abaixo forma selecionados de acordo com a minha experiencia como alunos e com o que eu tive disponível durante meus estudos em diferentes universidades, o que explica, por exemplo, o por que quase metade dos métodos são oriundos do Brasil. É válido mencionar que existem vários métodos a venda ou até mesmo para serem baixados gratuitamente (dependendo do acesso acadêmico que a sua universidade fornece); é possível ainda afirmar que neste exato momento existem métodos sendo escritos. Por fim, é importante dizer que nenhuma das considerações aqui trazidas miram a impactar ou criticar negativamente os trabalhos mencionados, apenas buscamos mostrar quão frequentemente o tema sobre “movimento corporal” e “postural” são mencionados em métodos de percussão conhecidos e como os autores abordam essas temáticas.

Stevens “Method of Movement for Marimba”
Um dos métodos mais importantes, em minha opinião, já escritos para o desenvolvimento da técnica de quatro baquetas – e que tambem desenvolver não apenas a performance na marimba, mas tambem em outros teclados de percussão – é o “Method of Movement for Marimba” (1990) de Leigh Howard Stevens. Não há dúvidas de que este livro traz importantes informações para os estudantes de percussão; ele possui basicamente dois capítulos: um primeiro introdutório e teórico, que explica as permutações com técnica de quatro baquetas, descreve as possíveis técnicas de segurar quatro baquetas e esclarece os movimentos antes, durante e depois dos toques nas teclas. E, por fim, um segundo capítulo com mais de 500 exercícios técnicos que gradualmente trabalham as permutações mencionadas.
O primeiro capítulo – o qual, infelizmente, eu já vi muitas pessoas desconsiderando – possui informações altamente importantes que ajudem estudantes como na verdade a arte de tocar pode se tornar uma tarefa fácil e inventiva. Stevens escreve como o percussionista consegue melhorar o seu tocar apenas através do pensar sobre a quantidade e o tipo de movimento implícito quando, por exemplo, tocando duas notas distintas. Uma de suas melhores frases é “Precisão e eficácia são reduzidos por falta de controle sobre distância e movimento. As baquetas não deveriam se mover para nenhum espaço que não está diretamente ligado à tarefa de tocar as teclas a partir da devida altura e recuperar para a devida altura para a próxima tecla/notai.” (STEVENS, 1990, p. 18)
Como diz o título do livro (“Método de MOVIMENTO para Marimba”), Stevens fez de fato um ótimo trabalho com seu primeiro capítulo, ele não aprofunda, entretanto, sobre questões de movimento corporal durante o tocar e praticar da marimba. Ele de fato escreve sobre a consciência corporal a respeito da importância de saber, por exemplo, como se deve pensar os cotovelos, ombros e dedos.

Anunciação “Manual de Percussão, Vol. II, Barrafones, Livro 1”
O método de Anunciação é um dos poucos métodos de percussão escritos em português por um músico brasileiro, o que o faz um material valioso para iniciantes e enriquece o acervo acadêmico ao adicionar mais um trabalho para a lista de obras disponíveis. Como de costume, o método começa com uma parte teórica, que foca em como usar e praticar o método, com o que se deve atentar e algumas informações sobre posicionamento e postural corporal. Sobre estes últimos tópicos, Anunciação escreve “Certifique-se de que as posições das mãos e braços são espontâneas e procure evitar qualquer enrijecimento muscular ou postura que altere o estado natural de sua compleição física (p. 37).” Anunciação compartilha até da mesma visão de Tarcha (1997) quando ele escreve “A postura em frente ao instrumento deve mediar o âmbito do trecho musical a se executar. Tenha os pés um pouco afastados um do outro e apoie o corpo equitativamente nas duas pernas (ibid, p. 40)”.
Ao irmos adiante com o método de Anunciação, podemos encontrar exercícios “Preliminares”, “Tonal” e “Melódico”. Esses exercícios foram muito bem compostos para que iniciantes possam desenvolver gradativamente seus sensos de tecnicidade e musicalidade, e a avançar com o método Anunciação traz explicações sobre as seções seguintes (“cadernos” ou “nível”, como ele descreve) nos quais ele frequentemente lembra o leitor de “não olhar excessivamente para as teclas do instrumento”. No que se refere à postura, está frase de Anunciação é bastante útil, pois previne que o estudante curve o pescoço para abaixo excessiva e alternadamente para olhar para a partitura e para o instrumento. Além disso, isso ajuda o estudante a desenvolver um sensor de familiaridade com o instrumento e a acertar as notas certas usando seu/sua visão periférica, técnica a qual é bastante útil para percussionistas em geral, habilidade tal que também é altamente desenvolvida pelo método “Ideo-Kinetics” (2001) de Gordon Stout.

Rosauro “Beginning Exercises and Studies for Two Mallets”
Este trabalho de Rosauro é provavelmente um dos métodos mais conhecidos e usados por iniciantes no Brasil, talvez porque ainda está a venda, está escritos em português, as instruções são valiosas e concisas, e o material musical educacional foi composto de maneira leve e criativa. Certamente não é um dos mais longos métodos (com apenas 24 páginas), mas ainda assim, dependendo do progresso do estudante, é possível imaginarmos um professor usando este método por alguns meses até que o aluno desenvolva entendimento e maturidade suficientes sobre os exercícios e estudos contidos no método.
Ao longo do método Rosauro insiste ao leitor que é de grande importância, para um melhor desenvolvimento da técnica, que não se deve olhar para o teclado enquanto tocamos, a fim de “melhorar a memorização entre as notas (memorial cinética) (p. 2)”. Isso segue com o que Anunciação diz em seu método, e, uma vez que Rosauro foi aluno de Anunciação, é esperado que Rosauro siga os ensinamentos de seu ex-professor. Além disto e de suas consequências indiretas na postura e no movimento durante a execução de instrumentos de baqueta, Rosauro não menciona nada mais que envolva explicitamente a importância de cuidar e observar uma postura e um movimento durante a execução.

Firth “Mallet Technique: 38 Studies for Xylophone, Marimba, and Vibraphone”
O método de Vic Firth traz uma série tradicional de exercícios (ou “Study”, como Firth os chama) para expansão da técnica, que definitivamente ajudam a desenvolver o treinamento auditivo e a execução técnica, trabalhando acordes dominantes e escalas maiores, menores (formas harmônicas e melódicas), aumentadas e diminutas. Em geral, os exercícios têm uma ideia melódica (ascendente ou descendente), na maioria das vezes com um arpejo no final ou sendo todo o exercício uma ideia de arpejo. Além disso, antes de cada estudo, é possível encontrar textos explicando o que se deve observar durante a prática. Alguns desses textos mencionam movimento corporal e postura.
Embora o Study nº 18 seja o primeiro em que Firth menciona algo sobre se preocupar com a localização física, a mesma ideia deste exercício já pode ser encontrada no Study nº 7. Vou explicar: o Study n° 7 funciona fazendo o aluno tocar duas vezes seguidas um arpejo de duas oitavas começando com Dó4, indo até Dó6 e descendo de volta para Dó4; depois que se termina de subir cromaticamente até Dó7, o estudo se inverte e o aluno toca a mesma ideia de arpejo, mas começando em Dó7, indo até Dó5 e voltando para Dó7 e, novamente, desce cromaticamente até o último arpejo com Dó4. Portanto, deve-se percorrer uma ampla extensão do instrumento de teclado. O Study nº 18 é a mesma coisa, mas começando com a nota Lá, ou seja, o aluno pratica a mesma ideia de arpejo, mas agora começando com uma escala menor. No final de ambos os exercícios, Firth reescreve a ideia, mas agora o aluno deve tocar apenas uma vez, e não duas seguidas, ou seja, ele tem menos tempo para permanecer no mesmo arpejo, o que significa que é um exercício melhor para desenvolver a destreza.
Antes do Study nº 7, Firth escreve: “Na segunda parte do estudo, a mente e os olhos devem, na verdade, viajar à frente das mãos para direcioná-las às notas corretas. (Consulte as notas do Study nº 18)ii” (Firth, 1965, p. 11). Quando lemos o texto do Study nº 18, encontramos: “Deve-se notar que a localização física do músico em relação ao instrumento é muito importante, devido à ampla extensão envolvida em arpejos de duas oitavas. Uma posição inadequada diante do instrumento tenderá a limitar a facilidade do músico para a velocidade.iii” (ibid, p. 18). Como ambos os exercícios trabalham em uma extensão de duas oitavas e até têm as mesmas recomendações de prática de andamento, seria mais sensato colocar esta última citação antes do Study nº 7, ou mesmo no início do livro, uma vez que tal conhecimento (que, diga-se de passagem, é de grande valor e importância para estudantes de percussão) seria útil para o processo de aprendizagem de todo o livro.
Os Studies nº 8 e 9 também são ótimos e interessantes exercícios para desenvolver o movimento ao longo da marimba, pois é preciso tocar a partir de uma extensão de, por exemplo, Lá3 a Dó6, que é superior a duas oitavas. Ambos os exercícios trabalham em uma escala de 4 compassos, ascendente e descendente, com a principal diferença sendo que o Study nº 8 trabalha na escala menor harmônica e o nº 9 na escala menor melódica. Como de costume, há textos que descrevem os estudos antes das notas, mas infelizmente não há menção sobre como lidar com o movimento e o posicionamento do corpo durante a execução dos exercícios.

Tarcha “Técnica de Duas Baquetas para Teclados de Percussão: Marimba, Vibrafone, Xilofone e Glockenspiel”
Embora o trabalho de Tarcha seja totalmente sobre a técnica de duas baquetas para teclados de percussão, a maior parte do conteúdo – não apenas o que diz respeito à posição e movimento do corpo – pode ser visto como conceitos gerais, uma vez que independe da técnica que se usa para tocar, indo ainda mais longe ao considerar técnicas de quatro baquetas. Claro, alguns ajustes são necessários e claramente observados ao tocar, por exemplo, exercícios técnicos elementares com diferentes técnicas de quatro tacos (um acorde de bloco de quatro notas, por exemplo). Isso pode influenciar a posição dos braços e antebraços, dependendo da técnica de quatro tacos que se toca. O método de Tarcha é dividido em 2 partes. A primeira sendo a descrição de como usá-lo e estudá-lo e um glossário. Nesta primeira parte, pode-se encontrar informações valiosas sobre como Tarcha se preocupa com a posição do corpo enquanto toca e pratica. Por exemplo, na segunda seção da primeira parte – “como utilizar e como estudar” – Tarcha menciona que se deve concentrar nos aspectos musicais e tomar consciência da postura física, do relaxamento e dos movimentos realizados; também, quanto à importância de decorar, Tarcha afirma que, assim, se pode observar melhor não apenas a posição das baquetas e do corpo, mas também ouvir com mais clareza o que está sendo tocado (p. 5). O mesmo resultado pode ser alcançado com sucesso quando se dá alguns minutos de descanso entre as práticas (p. 139).
Um dos detalhes mais úteis e importantes (na minha opinião) sobre a postura ao tocar mencionado por Tarcha é o posicionamento dos pés, ou seja, Tarcha recomenda colocá-los a cerca de 40 centímetros de distância e um deles à frente do outro (p. 18 e 22), porque isso traz melhor estabilidade ao corpo ao deslizar o tronco para frente e para trás e para os lados. Além disso, no início de seu segundo capítulo, Tarcha apresenta sua visão sobre a posição ideal do corpo e a altura do instrumento em relação ao instrumentista. De modo geral, ele afirma que a melhor altura é aquela que deixa os braços confortáveis e não tensos com a amplitude, o que permite o uso dos movimentos de pulso em todas as suas amplitudes. Ademais, os joelhos devem permanecer destravados, ou seja, levemente flexionados. Por fim, ele descreve o relaxamento muscular e a consciência corporal como essenciais para o desenvolvimento de uma boa técnica, lembrando também que os movimentos do tronco devem ser mais utilizados do que o movimento corporal de caminhar e que fazer pausas entre os exercícios é muito importante para verificar o posicionamento do corpo (p. 17-18).
Ao praticar escalas e arpejos, Tarcha menciona a importância dos mesmos aspectos, incluindo “posicionamento do corpo: é melhor não andar, apenas desloque o corpo, mudando o pé de apoio e flexionando o joelho” (p. 110 e 123).

Peters “Fundamental Method for Mallets, Vol. 1”
Peters escreve em seu Prefácio que este primeiro livro aborda inicialmente a técnica de dois baquetas, trabalhando em escalas (maior, menor, cromática e com dois registros) e algumas ideias básicas da técnica de quatro baquetas. Muitos dos exercícios técnicos iniciais podem parecer familiares e semelhantes ao livro de métodos de Firth. Ele também escreve uma pequena seção sobre “Playing Position” / “Posição de tocar”, logo antes da introdução ao método e informações básicas – porém valiosas – sobre como o método funciona e deve ser usado, bem como detalhes sobre outros instrumentos da seção de percussão (vibrafone, xilofone, bells (ou glockenspiel) e campanas).
Sobre posicionamento, Peters escreve informações essenciais para iniciantes, como “tente ser natural e confortável” e “a posição do corpo irá variar, dependendo do instrumento que você está tocando e da extensão que está sendo cobertaiv” (p. 14). O interessante aqui é que Peters escreve que se deve deixar os pés afastados para encontrar o equilíbrio do peso corporal, e a distância que ele recomenda é de cerca de 12 polegadas (que é cerca de 30 centímetros). Se nos lembrarmos do trabalho de Tarcha, ele menciona uma distância recomendada de 40 centímetros. Não acredito que qualquer um desses grandes mestres da percussão olharia para a distância entre os pés de alguém e diria “não é a distância que eu recomendei no meu livro!”, mas é interessante notar o quão próximas suas sugestões são, o que significa que ambos concordam com a mesma ideia: manter os pés afastados, porque a distribuição do peso corporal para tocar teclados de percussão é uma característica importante.
Além disso, o trabalho de Peters coincide com o de Tarcha no sentido de que ambos concordam quanto à importância da altura do instrumento. Tarcha afirma que “Estudar em um instrumento com altura inadequada pode resultar em vícios de postura e de técnica” (TARCHA, 1997, p. 16) e Peters escreve que os antebraços devem estar paralelos ao chão, ligeiramente inclinados para baixo e, para isso, se o instrumento não tiver nenhum sistema de ajuste de altura, pode-se “colocar blocos de madeira sob as rodas para elevar o instrumento a uma altura mais confortável para tocarv” (PETERS, 1995, p. 15).

Zeltsman “Four-mallet Marimba Playing: A Musical Approach for All Levels”
O método de quase 200 páginas de Zeltsman é um dos métodos mais interessantes e completos para marimbistas. Ela não só consegue, logo no início do livro, abordar os aspectos musicais mais importantes (como a escolha de baquetas, os pontos de toque, os fundamentos de um bom ritmo, fraseado e rulos), como também oferece ao aluno a oportunidade de tocar diversos estudos altamente musicais, detalhados e, pedagogicamente falando, excepcionalmente escritos. Além disso, ela escreve “este livro é para músicos de todos os níveis” (p. viii), o que o torna um livro que pode ser usado por um longo período apenas, por exemplo, por estudantes universitários.
Em relação à postura corporal, Zeltsman escreve que “você deve ter ambos os pés no chão, com o peso distribuído igualmente entre eles, e estar de pé, […]. Você quer que seus braços fiquem bem relaxados e longos, estendendo-se a partir dos ombros, com os cotovelos para dentro e relaxadosvi (p. 5)”. A seguir, vemos duas fotos de Zeltsman em pé atrás da marimba e, ao olharmos para essas fotos, é possível assimilarmos com o que Tarcha e Firth escrevem quando ambos chamam a atenção para a distribuição adequada do peso em ambas as pernas e para manter os cotovelos relaxados e ligeiramente flexionados para baixo. Isso significa que temos aqui excelentes profissionais da área de percussão que concordam com os mesmos ideais em relação à posição corporal e como otimizar a eficiência dos momentos de prática e execução.
Além disso, na “Section Three: Refinements” / “Seção Três: Aperfeiçoamentos”, Zeltsman dedica uma curta seção ao posicionamento do corpo, na qual afirma que, em algumas situações, é melhor deslocar o corpo um pouco para
um lado a fim de tornar a execução mais confortável, mesmo que isso possa “comprometer ligeiramente todos os seus pontos de toque, mas tente compensar e mitigar isso o máximo possívelvii”. Esta é de fato uma dica vantajosa, pois ajuda em muitas situações de repertório nas quais geralmente nos vemos em posicionamentos corporais estranhos, sem nem perceber que a solução para uma maneira mais confortável e – até mesmo – fácil de tocar certa passagem é, na verdade, mover, inclinar ou curvar o corpo de alguma maneira específica e ter essa opção em mente e gerenciar as possíveis consequências (como, como mencionado acima, comprometer os pontos de toque).
RESULTADOS E CONCLUSÃO
Foi interessante notar que, quando filtramos a busca por um assunto específico, como, neste caso, observar com que frequência e em que grau os métodos de percussão abordam o assunto do movimento e da postura corporal durante a execução de marimba/teclado de percussão, embora seja possível afirmar que ainda seja um assunto profundamente discutido pelos autores, alguns deles nos trazem informações valiosas que devemos: 1) ser mais atenciosos, pois eles não apenas podem nos ajudar a tocar melhor e mais rápido, mas também são mais propensos a nos manter em uma postura mais saudável durante nossas habituais sessões de prática de longas horas; 2) encorajar nossos colegas/alunos a prestar atenção às informações/seções teóricas que a maioria dos métodos possui, e não pular diretamente para os exercícios, porque isso pode levar à falta de uma abordagem que os autores esperavam que os leitores seguissem antes de praticar os exercícios, tornando as sessões de estudos sem sentido, uma vez que o aluno não está aplicando a abordagem teórica para os exercícios específicos a serem tocados.
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Rosauro, R. “Beginning Exercises and Studies for Two Mallets”, Pro Percussão Brasil.
i Original em inglês: Accuracy and efficiency are reduced by mismanagement of distance and momentum. The mallets should not be moved anywhere that is not directly related to the task of striking the bars from the proper height and recovering to the proper height for the next one.
ii Original em inglês: In the second part of the study, the mind and the eyes must actually travel ahead of the hands to direct the hands to the correct notes. (Refer to the notes of Study No. 18).
iii Original em inglês: It should be noted that the physical location of the player to the instrument is very important, owing to the wide span involved in two octave arpeggios. an improper position before the instrument will tend to limit the player’s facility for speed.
iv Original em inglês: Position of the body will vary, depending upon what instrument you are playing, and the range being covered.
v Original em inglês: place blocks of wood under the wheels in order to raise the instrument to a more comfortable playing height.
vi Original em inglês: you should have both feet on the floor with your weight distributed evenly between them and be standing up straight […]. You want your arms to feel very relaxed and long, extending from your shoulders, with elbows in and relaxed.
vii Original em inglês: compromise all your beating spots slightly, but try to compensate and mitigate this as much as possible.
Guilherme Misina concluiu dois bacharelados (Música e Educação Musical) na Universidade de São Paulo com a Dra. Eliana Sulpício e, posteriormente, seu mestrado em Música na Universidade Estadual de Campinas com o Dr. Fernando Hashimoto. Durante um intercâmbio em 2018, estudou na Universidade da Geórgia (EUA) com Tim Adams e tocou com diversos conjuntos. Completou um ano de Zertifikatstudienjahr em Percussão na Musikhochschule Münster com os professores Prof. Stephan Froleyks, Katarzyna Myka, Altfrid Sicking, Prof. Armin Weigert e Gereon Voß (2022). Atualmente, cursa seu doutorado na Musikhochschule Münster sob a orientação do Prof. Dr. Eduardo Lopes e do Prof. Stephan Froleyks.
Eduardo Lopes estudou percussão clássica no Conservatório de Roterdão (Holanda) e é Bacharel em Música com honras máximas (Summa Cum Laude) em execução e composição pelo Berklee College of Music (EUA). Em 2003, concluiu seu Doutorado em Teoria Musical pela Universidade de Southampton (Reino Unido), sob a orientação de Nicholas Cook. Eduardo recebeu inúmeros prémios académicos e artísticos de instituições portuguesas e internacionais, incluindo o Ministério da Cultura, a Berklee Achievement Scholarship, a Berklee International Grant, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e a Fundação Portuguesa para a Ciência e Tecnologia. Como baterista e percussionista, Eduardo atuou em vários países, incluindo Portugal, Espanha, Reino Unido, França, Holanda, Brasil, Japão e EUA, e continua a trabalhar como freelancer com músicos nacionais e internacionais de renome. Como investigador, publicou trabalhos nas áreas de Teoria Musical, Ritmo e Métrica, Estudos da Performance, Estudos de Jazz e Educação Musical. Eduardo lecionou na Universidade de Southampton, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto e na Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é professor titular de Música no Departamento de Música da Universidade de Évora e coordenador do laboratório de musicologia do CESEM-UEvora.
Stephan Froleyks nasceu em Kleve, no Baixo Reno, em 1962, e estudou nas academias de música de Hanover e Essen. Trabalha internacionalmente como compositor, intérprete e inventor de novos instrumentos. Recebeu diversas bolsas de estudo e prêmios de arte. Suas composições, instalações, peças radiofônicas, obras multimídia e música para teatro foram encomendadas pela WDR, Rádio Bremen e Deutschlandradio, entre outras, e são apresentadas em diversos festivais (Donaueschingen, Witten, Dresden, Londres, Amsterdã, São Paulo…). Como intérprete e músico de improvisação (bateria/tuba), Stephan Froleyks trabalha como solista e com diversos conjuntos na ampla área da música contemporânea.









